A fórmula da música que gruda

Cartum de um laboratório-fábrica retrô-futurista com tubos de vidro e alambiques destilando gota a gota a fórmula da música que gruda, rotulada "Grudol", enquanto cientistas observam esperançosos

Pesquisadores já sabem fazer uma canção entrar na sua cabeça.
Já pra fazer ela ficar lá dentro - é outra conversa.

Uma universidade em Taiwan analisou um monte de canções para descobrir o que torna uma música memorável. Entre o que eles descobriram, olha só: andamento acelerado, energia alta, humor positivo e - essa é de derrubar todos os butiás dos bolsos da gauchada - maior presença de notas Ré na melodia.

Notas Ré.

É o equivalente estatístico de descobrir que textos eficazes têm mais letras E. Está nos dados, é mensurável, é verdade. E é exatamente o tipo de informação que é perfeitamente, completamente, eternamente inútil para quem senta na frente do piano numa segunda-feira de manhã.

Mas o assunto rende.

No meio da safra recente de estudos bizarros sobre música memorável existe pelo menos um que merece atenção. Cientistas do Instituto Max Planck mediram, com um modelo estatístico, o quanto cada acorde de centenas de canções era previsível ou surpreendente, e pediram a ouvintes que dissessem quanto prazer dava cada trecho. Detalhe importante: eles ficaram nos acordes - a melodia, aquela que a gente assobia no chuveiro, ficou de fora. No fim, os cientistas chegaram à conclusão de que duas situações agradam: uma surpresa quando tudo era previsível, ou um conforto familiar quando tudo era incerto. Dito de outra forma, o ouvinte quer ser levemente traído quando sabe para onde a harmonia vai, e quer reencontrar o que conhece quando está perdido. Quer a mesma coisa, só que de um jeito um pouco diferente.
Cá entre nós, não é bem uma novidade: isso qualquer bom compositor sabe, de ouvido, há pelo menos uns trezentos anos. Mas um estudo sério confirmar conhecimento empírico é ótimo, sempre ajuda, e a gente respeita.

O problema começa quando alguém, lendo esses estudos, chega à conclusão de que, com alguns ingredientes postos na mesa, a receita está pronta. Porque não está nem perto disso.
No estudo tido como o mais rigoroso nesse campo, feito em Princeton, eles criaram mundos sociais paralelos e descobriram, resumindo muito, que: 1. músicas ruins quase nunca fazem sucesso; 2. músicas ótimas raramente fracassam; 3. músicas medianas podem fazer sucesso, dependendo do acaso - às vezes com a ajuda de algum impulso externo, fabricado ou não.
Antes que a gente prossiga, não tem como não destacar: o experimento mais sério sobre previsibilidade do sucesso concluiu que o fracasso é razoavelmente previsível - e que o sucesso, com aditivos ou sem, quase nunca é.

Nossa opinião: aposte sempre nas músicas ótimas.

Chicletes de verão

Quer ver o experimento de Princeton na prática? Todo fim de ano, ele roda no Brasil, de graça, e em escala continental. É quando todos nós fazemos a nossa aposta na música do verão. Umas 50 candidatas, todas com os ingredientes certos nas doses certas, e ninguém - gravadora, algoritmo, vidente, xamã, os Simpsons - é capaz de apontar, antes, qual delas o país vai de fato cantar em fevereiro. Jabaculês e forças estranhas até podem atuar, mas nada disso garante o sucesso. (E, a propósito: onde estão as músicas que foram para o trono dos últimos vinte verões? Grudaram por uns noventa dias. Depois desgrudaram. Não precisa responder. É retórica.)

O fato é que reconhecer músicas ótimas não é ciência. Então, como reconhecer uma? Do mesmo jeito que se reconhece a beleza: quando ela está lá, a gente sabe.

Quanto ao uso de aditivos - sociais, no caso - o de "Ai Se Eu Te Pego" talvez seja o caso mais conhecido. Também é, vamos dizer, o mais didático. A música já rolava nos palcos do Nordeste antes de Michel Teló. O empurrão que a catapultou para o planeta foi a dancinha do Neymar comemorando um gol - por sorte, ou não, logo replicada por Cristiano Ronaldo na Espanha. São os tais dos sinais sociais, o mecanismo exato de Princeton, nesse caso atuando em estádios, nas TVs e na Internet, diante de bilhões. Deu no que deu: a canção mais chiclete do mundo por uma temporada. Hoje, anos depois, onde é mesmo que ela toca?

Agora vire o vinil

"O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa." "Quem bate? É o frio!" "O elefante é fã de Parmalat." "Vem pra Caixa você também." Melodias que moram na memória de muita gente que era criança (ou nem isso) quando elas saíram do ar. O caso do Bamerindus, aliás, deixa qualquer especialista bege de espanto: o banco acabou em 97. A música sobreviveu ao banco, e dura até hoje na cabeça de milhões de pessoas - numa boa.

Nenhuma dessas musiquinhas ficou por ter montes de notas Ré. Ou porque tinha humor positivo. Verba de mídia, é claro, todas tiveram - mas centenas de outras tiveram tanta quanto, e ninguém lembra delas. O que essas quatro têm em comum - e nos perdoe por mais uma listinha - são três coisas: melodias memoráveis, consistência mantida por anos (num mercado onde o padrão é trocar de trilha a cada campanha) e vínculo emocional real com marcas que significavam alguma coisa na vida de quem ouvia. A primeira, nenhum estudo sabe fabricar. A segunda, quase nenhuma marca tem paciência de manter. A terceira vem com o tempo - para quem tem as outras duas.
Autoria envelhece bem. Fórmula, cada verão fica provado, tem validade de noventa dias. Talvez cem - se deixar no refrigerador.

Não é de hoje

A ideia de que receitas simples podem produzir resultados extraordinários acompanha a Humanidade desde sempre, e muitos gênios ajudaram esse pensamento a se espalhar. Afinal, pra eles é simples mesmo. John Lennon disse a David Bowie que a receita pra fazer grandes canções é não complicar: "É muito fácil... Tudo o que precisa é dizer o que quer dizer, fazer rimar e colocar uma batida ao fundo."
Até parece. Tente - e veja se você faz uma "Woman" ou uma "Beautiful Boy".

Não que gênios não façam música como quem faz um bolo, porque às vezes fazem. Antes de ser Raul Seixas, Raulzito passou o início dos anos 70 como produtor contratado da CBS, de paletó e gravata Pierre Cardin, fabricando sucessos em linha de montagem para os outros. "Doce, Doce Amor", do Jerry Adriani, é um deles. Há vários. Mas - felizmente pra nós e para os nossos argumentos - ninguém lembra do Raul por causa desses êxitos efêmeros. Todo mundo lembra é pelas grandes melodias que ele assinou depois que abandonou as esteiras e as fórmulas de produção da hora. Ninguém precisou plantar claque em plateia para ele continuar sendo cantado décadas depois da sua última canção.

É evidente que fazer músicas que entram e duram na memória é pra lá de complicado, e que não existe uma receita. Se existisse, você acha que alguma gravadora ou alguma empresa de IA já não teria registrado essa receitinha só pra ela? Um catálogo de canções realmente boas pode valer centenas de milhões de dólares. Todas elas sabem disso.
A ciência não explicar como se reconhece ou como se faz uma grande melodia não quer dizer que exista algo de mágico aí. É a coisa mais natural do mundo - só não é reta. A natureza quase não tem linhas retas, e o gosto humano também não.

O que nos leva ao assunto do momento: inteligências artificiais compõem música instantânea depois de ter ouvido milhões de canções. Andamento, energia, padrões de frequência, modo melódico, valência, e por aí vai - tudo que é mensurável, elas replicam surpreendentemente bem. Mas, se ouvir muita música bastasse, todo melômano seria um compositor. Os ingredientes de uma grande melodia ninguém sabe quais são, nem como medir - e o que ninguém sabe, ninguém consegue ensinar. Nem a uma pessoa, nem a uma máquina.

Sem querer, os pesquisadores daquela universidade de Taiwan escreveram uma parte do verbete dos Chuchus Sonoros: aquelas músicas que são feitas pela média, com a intenção de agradar todo mundo e que, no fim das contas, não conectam de verdade com ninguém.
A gente acredita que as pessoas sentem quando uma melodia é só média. E uma melodia média quase sempre passa batido. É tão redondinha e tão lisinha que entra por um ouvido e sai pelo outro. Mesmo tendo uma quantidade enorme de Rés.

Anote essa pra usar num deck: a ciência mediu a pegada. O animal, ninguém viu ainda.

Coda

PS: Falando em frases, durante anos a gente teve um cartaz tosco em cima da porta de um dos estúdios, bem no estilo Ted Lasso, com uma certeira do Duke Ellington: "Se soa bem, é bom."

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"Se eu soubesse de onde vêm as boas músicas, eu iria lá com mais frequência."
— Leonard Cohen

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