O Quebra-Cabeça de Deus

Quatro indivíduos, incluindo um robô humanoide, estão sentados em uma mesa de madeira em uma sala cheia de livros e instrumentos musicais, colaborando na montagem de um grande quebra-cabeça. Um deles segura uma caneca onde se lê "CAFÉ DE COLOMBIA".

Como usar IA para definir onde está a média, e então pular muito acima dela.

Aqui na Jinga, a gente não diz que cria música. A gente diz que compõe música. E dizemos isso porque existe um abismo semântico entre as duas palavras. "Criar" dá a ideia de um ato mágico, de fazer surgir alguma coisa do nada. "Compor" vem do latim componere: colocar junto. Organizar. Montar.

John Lennon definiu melhor que ninguém: "Writing a song is like putting a puzzle together." (Escrever uma música é como montar um quebra-cabeça). Você tem uma ideia de melodia aqui, a ideia de um riff de guitarra ali, a ideia pra uma outra frase da melodia acolá. As peças do quebra-cabeça, essas ideias, são criadas uma a uma, mas a obra é resultado de um processo meticuloso, e não uma criação.

Compor não é inventar a peça do zero, é perceber que a peça A encaixa perfeitamente na peça B, que a C encaixa nessas duas, e assim por diante.


O Quebra-Cabeça

Quando a Jinga começou, éramos quatro compositores num estúdio produzindo 50 ideias para montar uma única obra. A gente testava, errava, jogava fora, colava um refrão de um com a estrofe do outro. E encaixava nisso a ponte de um terceiro. Era um processo de seleção duro pra caramba. O valor não estava apenas em ter as ideias, mas - com certeza - em saber quais ideias não usar.

Os Ciborgues Competitivos

A Inteligência Artificial mudou esse processo? Sim. Bastante. Mas não do jeito que muita gente pensa.
Hoje, operamos no Modo Ciborgue. Nossos compositores usam IAs para começar o jogo. Digamos que temos budget pra colocar 5 compositores em um projeto. Cada um pede pra sua IA favorita gerar 12 músicas iniciais. Em minutos (tá bem, horas), temos 60 caminhos na mesa. Isso nos dá uma vantagem estratégica imediata: ficamos sabendo exatamente onde está a média. Sabemos quais são as soluções óbvias. Sabemos quais o mercado inteiro tem à disposição. E, nesse momento, começa o trabalho que vai fazer a diferença. A gente faz um "copidesque musical" dessas peças iniciais. Corta, edita, muda o tom. Acentua nuances. Mas, principalmente: a gente coloca as nossas próprias peças na mesa.

A Melodia Manda Sempre

A lendária professora Nadia Boulanger, que formou metade dos gênios da música do século XX, sempre insistiu nisso: ritmo, harmonia e contraponto são técnicas ensináveis. Mas "a melodia vem direto de Deus". Portanto, melodia não é ensinável.

A IA domina harmonia como ninguém. Ela já aprendeu tudo o que é ensinável. Sabe tudo de estrutura. Mas a melodia — aquele assobio que gruda na cabeça, a frase que emociona, a "alma" do negócio — essa continua sendo um mistério estatístico pra IA.

O trabalho do nosso time vai além de escolher, fazer curadoria. É interferir, acrescentando o incalculável. É pegar aquela música perfeitamente pasteurizada que a IA gerou e dizer: "Beleza, a harmonia tá bacana, mas a melodia certa, a peça central do quebra-cabeça, essa a gente vai ter que buscar onde a professora Boulanger disse: lá em cima."

A gente compete com as máquinas até que as nossas ideias melódicas vençam as delas. E só fica na obra aquilo que for, de fato, melhor.

O Valor de Compor

O resultado final quase nunca é puro. Costuma ser um híbrido. Pode ser uma base rítmica que a IA sugeriu (porque funcionava bem), carregando uma melodia humana inesquecível, finalizada com um timbre que lapidamos do zero. Cada projeto é único porque cada marca é única.
Vamos repetir: o trabalho do nosso time vai além de escolher. É intervir, acrescentar. E superar.

Coda

Por isso, não acreditamos que a IA vá baratear a música original. Ela apenas mudou a parte do processo onde investimos mais energia. Antes, gastávamos um bom tempo procurando a primeira ideia. Hoje, a primeira ideia vem rápido - e vem na média, como você sabe. Investimos o máximo de nosso tempo refinando, editando e achando jeitos de ir além, muito além dessa média. No fim, montamos o quebra-cabeça perfeito: parte matemática, parte divino. E 100% a marca.

Gerar música ficou fácil. Apertar um botão, qualquer um faz. Mas compor - no sentido de montar o quebra-cabeça perfeito, peça por peça, até encontrar a melodia que veio de Deus - isso continua sendo trabalho de gente. De gente que sabe voar o Boeing, não apenas o simulador.

 

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Melody is king, and don’t you ever forget it.
— Quincy Jones / Produtor Musical (1933-2024)

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