IA é a Ferramenta Certa para as Marcas Incertas

Um homem que parece Louis Armstrong segura um trumpete em um clube de jazz dos anos 40. Ele olha espantado para uma partitura onde as notas musicais são chuchus.

A IA usa probabilidade e as marcas icônicas, a improbabilidade. Entenda a diferença antes de criar o próximo chuchu sonoro.

Tem elefante digital na sala.
Em algum momento, você ou alguém perto de você pensou: "Será que podemos gerar essa trilha numa IA tipo Suno ou Udio e economizar a grana da produtora?". Nossa resposta: claro que pode. Mas não reclame quando a marca sumir.

Não somos luditas aqui. Não mesmo. Na Jinga, adoramos tecnologia desde o nosso primeiro synth Yamaha DX7. Mas existe um detalhe tecnológico do tamanho do Maracanã sobre como a Inteligência Artificial funciona: a IA é uma máquina de fazer médias.

A Matemática da Coluna do Meio

Modelos generativos (LLMs e de Áudio) são treinados com tudo o que já foi produzido e registrado de algum jeito na história. Quando você pede uma "trilha pop animada", o algoritmo analisa milhões de músicas pop animadas e calcula, estatisticamente, qual é a combinação de notas, timbres e ritmos mais provável de satisfazer ao seu pedido. E as duas palavras-chave são essas: mais provável. Nelas mora a bênção, mas também a maldição. A IA busca o padrão. Ela busca o consenso. E quando ela entrega o resultado - ele é a "média perfeita" de tudo o que ela aprendeu nesse mundão de Deus.

O problema? Branding é o oposto de média. Branding é sobre ser incomum. É sobre a quebra do padrão. É sobre o elemento estranho, o detalhe improvável, a surpresa, a mosca na sopa, a joia rara, a sonoridade da sanfona que ninguém usou ainda.

Não por acaso, pesquisa do Ipsos citada por Jenni Romaniuk mostra que sonic cues são os Distinctive Brand Assets mais eficazes para ganhar atenção de marca — mais até que celebrity endorsements e cores da marca. Mas esses sonic cues precisam ser únicos, não genéricos.

Se você usa uma ferramenta que foi desenhada para encontrar o padrão mais comum, você está, por definição científica, criando algo genérico.
Você está, nas nossas palavras, criando um "chuchu sonoro".

O Paradoxo da Perfeição

As trilhas geradas por IA são a cada dia mais impressionantes. Elas são afinadas, estão no tempo certo, têm a instrumentação de livro de Conservatório para cada estilo. Nada contra fazer as coisas bem feitas (a gente ama o craft), mas elas são "corretas" até o talo. A ponto de ficarem "erradas". Tudo o que ganham em exatidão, perdem em personalidade e singularidade. Falta a elas o que chamamos de "erros charmosos" ou de "deslizes da alma". A verdadeira perfeição, acredite, é imperfeita.

Pense nas marcas mais icônicas ou nas músicas que você ouve sem cansar. Quase sempre, o que prende a atenção é uma voz levemente rouca, uma guitarra com um timbre maluco, uma batida que atrasa um tiquinho. É justamente a imperfeição humana que cria a conexão humana. Mário Quintana dizia que “O estilo é uma dificuldade de expressão.” A IA limpa essas arestas. Ela te entrega um produto homogeneizado, pasteurizado, estéril. E, num feed onde todo mundo está usando as mesmas ferramentas para gerar o mesmo tipo de conteúdo, a perfeição asséptica transforma tudo em árvore na Amazônia: primeiro dificilmente visível, depois invisível.

Alucinação vs. Intenção

Tem mais: como a IA gera coisas baseada em sorteio estatístico, ela às vezes "alucina". Quer prova maior que essa de que a IA simplesmente chuta sempre na direção do mais provável?

Branding exige a intenção de sair da paisagem. Quando fazemos um Sonic Logo aqui na Jinga, pra cada escolha (metais ou madeiras? Allegro ou vivace?), a gente sempre toma uma decisão estratégica baseada nas qualidades da marca. Nunca na média das soluções de Sonic Logos premiados dos últimos 25 anos.

A IA não sabe o que é "estratégia". Mas sabe o que ela sabe muito bem? Ela sabe o que é "tag". A IA não escolhe um som porque ele comunica "inovação sustentável". Ela escolhe porque aquele som estatisticamente aparece muitas vezes junto com a tag "natureza". Deixar a identidade da marca na mão da estatística é tipo deixar o posicionamento dela ser definido pelos números que saíram na Mega Sena.

Então a IA é inútil?

De jeito nenhum. Pelo contrário. A IA define onde está a linha da mediocridade, e isso é super útil, porque aí a gente vê exatamente onde a mediocridade está, e pode pular acima dela. Ganhar dela.
A IA tem seu lugar no nosso processo. Mas ela é copiloto, não piloto.

Coda

Se o seu objetivo é apenas preencher o silêncio de um vídeo interno, a IA resolve e é barata. (Também usamos fotos de IA aqui nesse nosso blog, por exemplo). Mas se o seu objetivo é construir uma marca que seja reconhecida, lembrada, amada e idolatrada, salve, salve... então fugir da "média perfeita" é obrigação.
Marca nenhuma merece virar uma estatística de algoritmo.
Mediano e medíocre soam parecido, e isso não é por acaso.

 

🥁🥁

Se for fazer tudo pela média, você vai terminar falando com homens de um testículo só e com mulheres de um seio só.
— Michele Caetano / Diretor de Criação (1950-2021)

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