A Maratonista de 100 Metros

A imagem mostra uma maratonista pronta para largada de uma corrida de 100 metros mas, à frente dela, há uma estrada de quilômetros no deserto, típica de maratonas

Dizem que é impossível correr a prova de resistência e a prova de velocidade com a mesma excelência. A gente, esportivamente, discorda.

Existe uma crença arraigada na fisiologia esportiva que diz: você escolhe. Ou você tem a resistência de maratonista queniano, com fibras musculares feitas para aguentar o tranco por horas, ou você tem a explosão de um Usain Bolt, que nasceu para rasgar a pista em menos de 10 segundos. Tentar ser top olímpico nas duas modalidades é, biologicamente, impossível.

O mercado de comunicação pegou essa regra biológica e monocraticamente fez dela uma Lei. De um lado, temos as agências e produtoras de "Brand Building", que cuidam da maratona: a construção da marca, o manifesto, a emoção de longo prazo, o jingle que dura 40 anos (como o que fizemos para a RBS e que segue no ar até hoje). Do outro lado, temos as frentes de "Performance" e UX, obcecadas pelo tiro curto: o clique, a conversão, o som de notificação, o swipe de meio segundo.

O problema é que, ao separar essas duas disciplinas, a maioria das marcas ficou mais esquizofrênica que o Rubião do Machado de Assis. Elas são épicas e emocionantes na TV (maratona), mas são frias e robóticas no aplicativo (tiro curto). Ou, dizendo de outro modo: elas têm alma no manifesto, mas são genéricas na hora do earcon (no popular, o "bipe”).

E o custo disso é mensurável. Estudos do IAB mostram que marcas com experiência consistente entre canais aumentam intenção de compra em 90% e brand perception em 68%. A inversão também é verdadeira: marcas com baixa coerência perdem esse potencial inteiro. O cérebro humano detecta inconsistência, mesmo que inconscientemente, e interpreta como falta de confiabilidade. No frigir dos ovos, quando a marca soa épica na TV mas genérica no app, você não está apenas perdendo identidade.
Tá perdendo dinheiro.

A Anomalia Genética da Jinga

A gente gosta de pensar que somos a exceção dessa regra. Talvez seja pura teimosia nossa. Ou talvez a gente tenha entendido uma coisa que o manual de fisiologia do marketing anda esquecendo: a marca é um organismo só.

Nós adoramos correr a maratona. Criar Brand Anthems, canções estruturadas, jingles que contam histórias com começo, meio e fim - essa é a nossa paixão original. Sabemos construir a memória que fica. Mas descobrimos que essa mesma "alma" que sustenta a maratona precisa necessariamente estar também no tiro de 100 metros - ou seja, no tiro de 1,5 segundo.

Condensar, não Cortar

Fazer um som curto (um UX Sound, um Sonic Logo, um alerta) não é pegar uma música longa e passar o facão. Há quem goste, mas esse é o monstruoso modo Matsunaga: mutilação, esquartejamento, picadinho por tudo. Preferimos outro caminho porque, pra nós, fazer um som curto é síntese. Você pega toda a carga emocional, a textura e a personalidade daquela maratona e comprime em uma única poderosa molécula de som. É difícil? Olha, até que é. É um esporte diferente? Com a mais absoluta certeza. Mas quando você consegue injetar a emoção de uma grande trilha dentro de um pequeno som de interface, acontece algo mágico: a dopamina do usuário dispara. E não estamos falando como metáfora - é literal. A ciência diz que, quando o cérebro reconhece um padrão sonoro familiar (aquele earcon que carrega o DNA da brand song que ele já conhece), ele libera dopamina: aquele neurotransmissor responsável por prazer, recompensa e, principalmente, pela memória. O cérebro dele ou dela reconhece a coerência. A marca deixa de ser um serviço fragmentado e vira uma presença constante, consistente, familiar. E familiaridade, você sabe, é a porta de entrada pra vida das pessoas.

Imagine um projeto para uma marca de varejo. A gente cria uma Brand Song cheia de carisma, com 2 minutos, para a campanha de TV. O desafio vem logo depois: o app da marca tem, vamos dizer, 20 pontos de interação que precisam de som (adicionar ao carrinho, confirmar pagamento, notificação de entrega, etc). Aí, em vez de usar sons genéricos de biblioteca (que não custam nada mas em geral valem menos ainda), a gente extrai o DNA melódico e tímbrico da Brand Song e sintetiza em earcons de 0,3 a 0,8 segundos. O resultado: os usuários vão associar a "sensação" da campanha de TV com a experiência do app — mesmo sem perceber conscientemente a conexão sonora.
A marca ganha coerência, o cliente ganha conversão. É neurociência aplicada.

O Treino é Diferente, o Atleta é o Mesmo

Não acreditamos na divisão entre "música de arte" e "som de função". Um jingle marcante é, por definição, um ótimo UX: ele guia a emoção do usuário sem cansar, mesmo após mil repetições. E um som de interface marcante tem que ter musicalidade, descer redondo.

Se a sua marca está cansada de ter que trocar de voz (e de personalidade) a cada prova que disputa, talvez seja hora de chamar um treinador que sabe que resistência e velocidade não são opostos.
São apenas tempos diferentes para expressar a mesma alma.

 

🥁🥁

"A simplicidade é a conquista final. Depois de ter tocado uma vasta quantidade de notas, é a simplicidade que emerge como a recompensa suprema da arte."
— Frédéric Chopin

Gostou?

Não gostou?

Próximo
Próximo

De Ouvidos Ligados